danillo villa

ler, ver

escritos sob o efeito dos trabalhos da artista

  • 1

    essa noite anônima
    esse espanto insone
    de peito porto


    rio cortado de fugas fins e encontros

  • 2

    montanhas 
    barcos invertidos
    fundos escurecidos
    de outro mundo


    linha de horizonte
    espelho de corte 
    e voltar a ser
    amanhã ontem e homem


    de abismo em abismo

  • 3

    árvores
    como candelabros
    ardem escuridão e assombro


    caminhos
    são vertigens
    invertidas


    para o corpo em queda
    tudo é por onde recurso e espelho
    planeta em órbita incerta
    para cima
    mais fundo
    no meio

  • 4

    amores voadores
    ouviu meu nome?


    tudo me escapa
    pelas escadas de incêndio


    espaços vagos
    a extremidade é tato


    tocado o infinito respira em meu tórax


    coreografando tempo
    tudo é desenho dança e nado


    decoro palavras curtas
    eu fonte e fim

  • 5

    as coisas vibram instáveis
    por todos os lados
    vistas incompletas como luvas
    aderência e narciso

    as temperaturas
    nas extremidades
    provas nuas
    do desconhecido aqui

    nudez disponível crueza e destino

  • 6

    contra a corrente
    rentes aos pés
    aos abismos e suas cortinas

    quedas
    desorientam bússolas


    todas as vias
    invadidas
    por ventos
    águas e ruínas


    o mundo se desfaz
    em outros mundos


    quando não há paz

  • 7

    entre mundos 
    submerso 
    até às águas dos olhos 


    tudo é matéria tempo e sina 


    olhares vigiam insones 
    falas de muitas bocas


    beijar e engolir 
    cada canto físico
    da imensidão deste lugar 

  • 8

    cílios silentes
    grama verde


    …assim a brisa nos ramos diz
    uma imprecisa coisa feliz…


    a um corpo ancorado no abismo

  • 9

    estados nascentes
    matérias iniciais
    amores físicos
    roupas leves 
    peles do dia
    unhas curtas


    caminhos até ali


    e o mais familiar
    se abre
    em delírios acessíveis

  • 10

    eu e mundo
    invasão mútua


    vias rasas mergulho profundo


    nada ordena o espírito livre

  • 11

    pelos olhos
    engolir estrelas
    tatear o divino 


    de pelos roçados na pele
    de boca acordada
    em horas nascentes


    num giro
    mapear distâncias
    entre voos e abismos

    deuses 
    e belezas 
    perigos distinto


    destino

  • 12

    deixar as marés 
    me vestirem
    e despirem 
    partir ondas
    abrir mares
    entre carrancas


    avançar

  • 13

    escalas desgovernadas 
    abrem caminhos 

    tudo é ninho ímpar mínimo
    esquina deserto sem tino 


    toda poeira 
    arrebenta em destino 

  • 14

    eu te ouvi dizer
    sem querer dizer
    que eu estava errado
    num corpo certo
    eu estava incerto
    no caminho errado


    as montanhas coincidem
    em espaço em passos

  • 15

    me perco em sonhos


    olhos vítreos 
    lâminas d’água 
    rios moldando esferas

    e esperas 
    vazantes multicores  
    em céus de bocas 
    que de tudo testam

    retirando o sono
    a película das horas 
    da superfície dos nomes
    que de nada servem


    pelas metades
    partidas 
    sabem-se os caminhos

  • 16

    além 
    é o lar 
    da luz

  • 17

    estou sensível 
    aos teus acertos


    teus dardos 
    me acertam


    tenho visto
    teus olhos 
    onde eu não via nada


    tenho sentido medo

    proteja meus lábios 
    com manteiga de cacau

    mova seus cabelos

    ajeite-se 
    enquanto eu me desajeito

  • 18

    fiz a paz
    oscilar
    no que me tornei

    ninguém me verá 
    como você 

    eu vou sair 

    meus campos crescem 
    para dentro de mim 

    me assustei 
    convertido 
    em teu plano

    encarnado e doce 
    com purezas estendidas 
    dançando  

    tentando esconder-me 
    camuflar-me para não ser humano

    como combinamos

  • 19

    bato
    no ritmo aperto 
    do coração deserto
    labirinto inserto 
    de pedra

    bato

    ouvindo 
    nos ossos
    ecos infinitos
    de um eu
    vazio
    que ouço nascer 
    mil vezes

  • 20

    tudo é ponte
    salto 
    tudo beira

    tudo assusta
    precipita
    na segunda feira

    tudo arrisca
    não ser
    por um segundo

    infinito

    e nunca mais 
    volta a ser 

    o que se queira 

  • .

    .

  • .

    .

  • 21

    eu preciso de um deus
    editado 
    sem pretensões de infinito
    que olhe para baixo
    que recorte
    edite
    ele mesmo
    ocupado
    da minha sinusite

    eu preciso de um deus
    com hora marcada

    que atenda telefone
    responda mensagens 


    que não me coloque em espera
    ouvindo música cafona


    preciso de um deus
    satisfeito com o que ofereço


    e que não esqueça do meu aniversário


    não sendo boticário
    qualquer lembrancinha serve