vânia mignone

Duas circunstâncias chamaram-me a atenção na recente produção de Vânia Mignone. Talvez elas sempre estivessem presentes mas somente agora se manifestaram de forma clarividente para mim. Uma é a atmosfera musical que percorre suas pinturas, e a outra é uma dimensão cênica, a constituição de uma história por meio de uma sequência de frames, assim mesmo, como uma linguagem fílmica. Esta última anotação, por assim dizer, não é exatamente uma novidade no seu trabalho mas penso que ela se acentuou nos últimos anos. É o caso, por exemplo, de um conjunto de pinturas que constitui claramente uma linha narrativa ao relatar, ao seu modo, o cotidiano e imediatamente o incêndio de um circo. Ou ainda polípticos que assim como quebra-cabeças congregam peças que se unem para celebrar uma história, como é o caso de uma obra sem título, de 2016, dividida em 8 partes iguais de 60 x 60 cm. Nesta, uma mulher está deitada, provavelmente desacordada, no meio de um jardim, e ao fundo um semi-arco colorido com a frase “a tempestade começa aqui” estampada logo abaixo. Aqui está o que considero um dos pontos chaves da sua poética, isto é, a forma como um conceito narrativo é trazido à tona. Ele é tornado aparente por meio de intervalos, sombras, pistas que não elaboram claramente a imagem do que está diante de nós, vestígios que nos transformam em detetives tentando elucubrar a cena do crime. São situações rápidas, flashes de um instante, uma ação especulativa e simultaneamente concisa.

Percebam que 3 obras, todas produzidas no ano passado, que fazem parte da exposição possuem essa mesma condição concomitante de autonomia e rede. São elas: Ali ficou, O efêmero e Pássaros. Possuem uma independência ao mesmo tempo em que constroem um fio condutor – que se dá pela proximidade estético-visual dos personagens que habitam aquelas obras e pelo texto - que constitui o dado narrativo entre elas. Ademais, são imagens entrecortadas, já que tanto os pássaros quanto a mulher que habita Ali ficou não se apresentam de forma inteiriça. Estão fora do quadro. Imagens laterais, periféricas, “tortas”. Lembram-me a vagueza e a força descomunal dos espargos de Manet(1). Algo fora do comum, inadequado, porque não se espera isso de uma pintura. Os conservadores diriam que a pintura precisa revelar o mundo, ilustrar e refletir sobre aquilo que nos cerca, dar conta do que se coloca diante de nós. Vânia assim como Manet, Courbet, Toulouse-Lautrec, como tantos outros, seguem um caminho um pouco distinto desse. Eles se interessam pelo índice do que é verdadeiramente humano: a sua própria essência, aquilo com que convivemos boa parte do tempo, o que é da ordem do vago, do anti-espetáculo, do comum, da rotina estafante de ter que preencher o dia e nos vermos cercados por “insignificâncias”. Nada é mais significativo, prosaico e gracioso do que os olhares perdidos sejam da mulher ou do pássaro nas pinturas de Vânia.

Por outro lado, os cortes abruptos e fotográficos que aplica à imagem, a atmosfera urbana, caótica, em certa medida sensual e delirante que permeia os cenários que constrói e o protagonismo de uma personagem feminina levam-me a um referente para o seu trabalho: Wanda Pimentel. Definitivamente não acho que se tratam de obras panfletárias ou que aludem a qualquer tipo de ideologia, simplesmente pelo fato que a protagonista em ambos os casos é uma mulher (sem cabeça, no caso de Pimentel, pois o que costumava aparecer em sua icônica série Envolvimento, realizada nas décadas de 1960 e 70, eram basicamente as pernas e o tronco). Geralmente as telas dessa fase de trabalho de Pimentel tinham a casa como cenário e a aparição de peças de vestuário feminino, chaleira, mesas, isto é, o ambiente privado de um domicílio cercados por símbolos condicionadas a serem do universo feminino. Ainda que esteja cercada por eletrodomésticos ou exerça atividades que de forma preconceituosa são associadas à prática de vida da mulher, a personagem que habita suas telas exerce uma vontade própria e libertária. Aqui reside o cinismo da artista. Associando publicidade, fotonovela e um ligeiro erotismo, a mulher em Pimentel não se limita a contemplar a cena, pois ela é parte da mesma. A artista assume uma postura fortemente crítica em relação à mulher como presa indefesa do consumo fácil. E apesar de serem tempos distintos, gosto de pensar que a mulher, em especial, no trabalho de Vânia possui essas qualidades que estão presentes na obra de Wanda: autonomia, liberdade e força. É uma mulher frágil e intensa, enigmática e franca, vibrante e tímida, destemida e reflexiva. Enfim, impossível de ser definida pois ela mesma é produto desse fluxo de contradições e sentimentos.

Voltemos à série de trabalhos em que o circo é o tema. Tudo gira em torno do mistério, do estranhamente familiar. Apesar de não sabermos exatamente a origem e o destino daqueles personagens, eles não se constituem como elementos dispersos e autônomos. As pinturas criam um enlace, uma montagem não-linear onde passado, presente e futuro perdem suas orientações. Suas pinturas de certa forma sequestram o nosso olhar, pois somos seduzidos a desvendar cada trama da história. Percebam que geralmente são closes, aproximações, nada é oferecido ao acaso e mesmo assim aos poucos. Não há desperdício nessas imagens. São concisas, misteriosas, autoexplicativas e musicais. Muito já foi escrito sobre a proximidade entre a obra de Vânia e a estética dos cartazes, ou seja, como uma certa produção da indústria da imagem faz parte do universo de referências da artista. Não discordo, mas cada vez mais “ouço” rock ao assistir as suas obras. Em alguns momentos o próprio formato das obras faz menção a um cartaz ou capa de álbum(2). A linguagem direta das obras induz um peso e um incômodo ao cotidiano sereno assim como possui essa velocidade instantânea e crua que descrevi há pouco. São ingredientes típicos de uma canção com poucos acordes e que fala ao mundo, sem meias palavras, retratando a sua crueza sem perder a expectativa, mesmo que ligeira, pelo otimismo. Essa minha percepção de que o seu trabalho se confunde com as letras e o ambiente do rock coincide com uma paleta nova de cores que Vânia vem explorando recentemente. Duas situações que se colocam agora à prova. Mesmo que o fundo ainda se mantenha monocromático, há uma profusão maior e mais vibrante de cores convivendo no mesmo plano, como laranja, lilás, azul e marrom(3).

Deixo-os nesse momento em contato com essa produção instigante que tem sua força precisamente por nos ofertar mais dúvidas do que certezas. A sua potência no meio da pintura – uma forma de pensar o mundo desgastada na última década por fórmulas fáceis e frágeis - se faz por ser um eterno enigma, por nos empurrar para uma zona difícil de ser localizada. Como escrevi em outro momento sobre a obra de Vânia, são situações imprecisas pois são imagens de todo e nenhum lugar ao mesmo tempo.

Felipe Scovino

 

vânia mignone

There are two circumstances in Vânia Mignone’s recent production that I have found most noteworthy. Perhaps they have always been present, but they have just become abundantly clear to me. One is the musical atmosphere that runs through her paintings, and the other is a scenic dimension, the construction of a story through a sequence of frames, as in a language of filmmaking. This second observation is not exactly a new development in her work, but I think that it has become stronger over the last years. This is the case, for example, of a set of paintings that clearly constitutes a unique narrative line concerning everyday life and a fire at a circus. Or, moreover, polyptychs which operate like puzzles, bringing together pieces to celebrate a story, as is the case of an untitled work from 2016 divided into eight parts measuring 60 x 60 cm each. In this work, a woman is lying down, probably awake, in the middle of a garden, and in the background there is a colorful arc with the phrase “A tempestade começa aqui” [The storm starts here] printed just below it. Here lies what I consider one of the key points of her poetics: the way that a narrative concept is brought to light. It is made apparent through a series of gaps, shadows, clues that do not clearly produce the image we are looking at, being rather vestiges which turn us into detectives searching for evidence at a crime scene. They are quick situations, flashes of an instant, a speculative and simultaneously concise action.
There are three artworks, all produced last year, which are part of this exhibition and possess this same condition of being simultaneously autonomous and joined in a network. They are Ali ficou [It Stayed There] O efêmero [The Ephemeral] and Pássaros [Birds]. They are mutually independent at the same time that they jointly construct a narrative thread
– which arises through the visual-aesthetic proximity of the characters that inhabit these artworks, coupled with the textual content – which constitutes the narrative connection between them. They are moreover incomplete images insofar as the birds as well as the women who inhabit Ali ficou do not appear in their entirety. They are outside the frame, existing as lateral, peripheral, “twisted” images. I recall the vagueness and uncommon power of Manet’s asparagus1

. Something extraordinary, unsuited, because this is not suspected from a painting. The conservatives would say that painting needs to reveal the world, to illustrate and reflect on what is around us, to give an account of what is placed before us. This is not the case of the work by Vânia, who treads a path akin to many artists such as Manet, Courbet and Toulouse- Lautrec, who are interested in signs of what is truly human: the essence of being human, that which we experience a good part of the time, which is somewhat vague, not at all showy, but rather commonplace, from the tedium of daily life, surrounded by “insignificances.” Nothing is more significant, prosaic and gracious than the faraway look of the woman, or of the bird in Vânia’s paintings.
On the other hand, the abrupt and photographic cuts that she applies to the image, creating a somewhat sensuous and delirious chaotic urban atmosphere that pervades the scenarios she constructs, coupled with the protagonism of a female character, point to a referent for her work: Wanda Pimentel. I definitively do not think that these are works of political activism, or that they allude to some sort of ideology, simply because the protagonist in both cases is a woman (headless, in the case of Pimentel, because what generally appeared in her iconic Envolvimento series, produced in the 1960s and 1970s, were basically legs and torso). The canvases from that phase of Pimentel’s took the house as their setting, inhabited by pieces of women’s clothing, teapots, tables – that is, the private setting of a household surrounded by symbols conditioned as being from the female universe. Even though she is  surrounded by household appliances or involved in activities which are in a preconceived way associated to a woman’s life, the character that inhabits her paintings exercises an individual and free will. Here resides the artist’s cynicism.
Associating advertising, the photonovela and a slight eroticism, the woman in Pimentel’s art does not limit herself to contemplating the scene, since she is part of it. The artist takes a strongly critical stand in relation to the woman as a defenseless prey of easy consumerism. And despite their being from different times, I like to think that the woman, especially in Vânia’s work, possesses these qualities that are present in Wanda’s work: autonomy, freedom and power. She is a fragile and intense, enigmatic and straightforward, vibrant and shy, fearless and reflexive woman. In short, she defies definition for being a product of this flow of contradictions and feelings.
We return to the series of works in which the circus is the theme. Everything turns around the mysterious, the strangely familiar. Although we do not know the precise origin and destiny of those characters, they are not scattered and autonomous elements. The paintings create a link, a nonlinear montage where past, present and future lose their bearings. In a certain way her paintings kidnap our gaze, since we are seduced into unveiling each plot of the story. We perceive that they are generally close-ups, approximations; nothing is open to chance, and even so, the process is gradual. There is no deadwood in these images. They are concise, mysterious, self-exploitative and musical. Much has been written about the proximity between Vânia’s work and the aesthetics of posters, that is, how a certain production of the industry of the image is part of the universe of the artist’s references. I do not disagree with this, but I increasingly “hear” rock when I look at these works. At some moments the format of the artworks themselves makes mention of a poster or album cover2

. The straightforward language of the works lends a weight and uneasiness to the everyday serenity insofar as it has the above-described raw, instantaneous velocity. They are typical ingredients of a song with a few chords and which speaks to the world, in frank terms, portraying its cruelty without losing the expectation, however slight, for optimism. This perception of mine that her work blends with the lyrics and environment of rock coincides with a new color palette that Vânia has been exploring recently. So these are two situations that are now put to the test. Even though the background is still monochromatic, there is a larger and more vibrant profusion of colors sharing the same plane, such as orange, lilac, blue and brown3
. I will now leave you in contact with this instigating production whose power lies precisely in that it offers us more doubts than certainties. The artist’s power in the medium of painting – a way of thinking about the world worn down in the last decade by easy and fragile formulas – arises for its being an eternal enigma, pushing us into a zone that is difficult to locate. As I wrote at another moment about Vânia’s work, they are imprecise situations since they are images of everywhere and nowhere at the same time.

1. I refer to the oil on canvas L’Asperge, from 1880.
2. An important fact for this discussion is that Vania produced the cover for the album Jardim/ Pomar, by Nando Reis, released in 2016.
3. I refer, for example, to two works denominated as Untitled and dated 2016. One of these is alluded to in this text (as it includes the phrase “A tempestade começa aqui,” and the other contains the expression “Na floresta que escolhi” [In the forest that I chose] painted on its surface.